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Tramas e pontos que atravessam gerações: Povoado ribeirinho Entremontes, do Sertão alagoano, mantém viva a tradição dos bordados. Um panorama sobre o legado histórico e artístico dos trabalhos manuais que estão sendo transmitidos para a nova safra de entremontenses.

26 de dezembro de 2020 | Por: Wilson Smith

Produção Wilson Smith e Janny Araújo

O povoado Entremontes fica localizado às margens do rio São Francisco, voltado para a direção oeste do centro histórico no município de Piranhas em Alagoas. A região possui 600 habitantes (eleitores registrados), mas a população total gira em torno de mil pessoas e tem como maiores atividades trabalhos manuais, a pesca e a agricultura de subsistência. O ar bucólico do povoado, cercado pela natureza quase intocada é o berço onde grande porção dos ribeirinhos tem as mãos como ferramentas para confeccionarem os tradicionais bordados alagoanos, que são patrimônios imateriais do Estado.

O povoamento de Entremontes faz jus ao nome, de longe pode ser avistado entre montes à beira do rio São Francisco. Os casarões antigos e coloridos, sempre tem moradores sentados à porta realizando o ofício artesanal, mantendo as tradições que são passadas entre gerações, confeccionando uma das mais belas rendas do interior de Alagoas, o redendê e boa-noite. O Blog do Wil foi em busca para conhecer mais sobre esse trabalho delicado, minucioso e único que nasce pelas mãos de bisavós às netas entremontenses, uma troca de saber ancestral muito latente.

Uma porção das bordadeiras participam de uma associação de rendeiras e as criações feitas em Entremontes atualmente são exportadas para outros países. Nas próprias casas a sala principal é transformada em loja e os visitantes podem conhecer a diversidade das costuras, além de ver de perto como são fabricadas as confecções.

Embora seja um lugar pequeno, há muitas histórias que atraem turistas de diversas regiões. Entre as narrativas que são reverberadas pelos moradores, os destaques são a passagem de D. Pedro II e o fato da região compor a rota turística do Cangaço, espaços que Lampião e seu bando transitaram, que compreende também os municípios de Poço Redondo (SE), Canindé do São Francisco (SE) e Delmiro Gouveia (AL).

A cidade resguarda fatos históricos e que os moradores se orgulham em contar para quem chega, como a passagem do Imperador D. Pedro II, que foi à Província de Alagoas para conhecer a cachoeira de Paulo Afonso,  “Ao passar pelas redondezas a bordo de um vapor teria perguntado, que lugar era aquele que ficava entre os montes. A partir da pergunta do Imperador, nossa vila passou a se chamar Entremontes”, conta dona Lourdes – cidadã ilustre –  enquanto separa as linhas para a tarde de bordados. Em uma caminhada já nos deparamos com outros acréscimos nos relatos dos moradores, mas para além das conversas, a arte manual é sempre o que emoldura as histórias.

Vale visitar o vilarejo típico do Baixo São Francisco, a cada encontro com os moradores mais se tem contato com a essência de um povo talentoso e que consegue fazer trabalhos manuais de extrema delicadeza. Cangaço, Lampião, D. Pedro II, bordadeiras e pescadores formam um compilado criativo de histórias e experiências estéticas.

A maior porção da população adulta tem um nível de escolaridade que vai até o ensino fundamental I completo (até o quinto ano), o índice de analfabetismo chega aos 35%. Já os mais jovens estão vivendo um momento de maiores oportunidades e inseridos na escola já na primeira infância. Uma população forte, que resiste e segue em constante processo criativo. Há ainda algumas ações de entidades, institutos e ONGs não governamentais em geral, como: ArtSol e IPTI (Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação) voltadas para o artesanato que estão encorpando esse movimento artístico e trazendo o olhar da valorização para os criadores locais. O PAB (Programa do Artesanato Brasileiro do Sebrae).

No entanto, essas ações são sempre focadas na associação ou na cooperativa local, o que nem sempre atinge todo grupo de bordadeiras do povoado, contemplando somente as artesãs associadas, que não representam um terço da população de mulheres que lidam com esse ofício. A atual gestão do Governo de Alagoas tem trabalhado com o programa Alagoas Feito à Mão que está começando a reverberar no povoado.

Sobre a união com a nova geração de criadores

Alagoas é uma terra fértil para mentes criativas, e nessa nova safra de talentos o jovem estilista Antonio Castro vem se destacando pela expertise em dar ar contemporâneo ao artesanato. O interesse por moda chegou cedo para Antonio, por volta dos 15 anos ele já desenvolvia um projeto independente em conjunto com amigos para expressar suas ideias dentro desse cenário criativo.

Sempre aplicado em todas as suas atividades, não demorou muito para enxergar nessas ações um caminho para seu desenvolvimento profissional. Ainda em Maceió fez alguns cursos na área, e em 2014 foi para São Paulo cursar Design de Moda pelo Centro Universitário Senac, atualmente está fazendo pós-graduação em Empreendedorismo e Gestão pela PUC Paraná.

Entre suas experiências profissionais estão o estágio no ateliê da Fernanda Yamamoto, que aconteceu durante a finalização da coleção Histórias Rendadas, desenvolvida junto às artesãs rendeiras da técnica de renda renascença do cariri paraibano, essa vivência só o conectou ainda mais com o processo do fazer manual e também deu uma visão mais ampla do processo de construção de uma coleção e desfile dentro de uma marca de peso.

A produção manual sempre foi muito presente nos trabalhos que levam sua assinatura: “Logo após a graduação (2018), entendi que minha prioridade não era mais a moda e sim o artesanato, independente da mídia ou do veículo pelo qual ele se manifestasse”, reforçou para o Suplemento. Antonio trabalhou com Zizi Carderari no Estúdio Avelós, marca de produtos têxteis feitos em tear manual para casa, e no Projeto Sertões, onde permaneceu até o final de 2019.

Atualmente, aos 25 anos, dedica-se ao cargo de designer de produto na ONG ArteSol, atuando no desenvolvimento de peças de decoração e uso pessoal junto a grupos de artesãos tradicionais em diversas partes do Brasil. E seu mais recente projeto é a marca autoral Foz, um trabalho sensível em cada detalhe e que revela no processo a verdadeira essência da produção artesanal, as peças são produzidas pelas mãos de moradores entremontenses.

A marca Foz nasce como uma manifestação do que o jovem acredita ser relevante para a produção de moda no Brasil contemporâneo, aliada ao coletivo, desenvolvida por muitas mãos e mentes que pensam e constroem uma narrativa popular, local e mestiça. É a consumação de duas paixões que até então conviviam em paralelo para o designer, a moda e o artesanato, que agora finalmente se encontram e misturam, criando possibilidades híbridas. O projeto surge como uma possibilidade de conectar diferentes gerações e amplificar o trabalho das artesãs, bem como trazer recursos para manutenção desses ofícios através de outras possibilidades de produtos. E esse olhar moderno, acaba impulsionando outros jovens da cidade e assim aquecendo toda rede. Mantendo a transmissão dos conhecimentos sempre acesa.

A marca é uma ideia que vem em formação dentro de Castro desde seu primeiro contato com o povoado de Entremontes. Ainda lá em 2016, numa pesquisa de possibilidades do que poderia trabalhar no TCC, ele entendeu que esse poderia ser um projeto construído por muitas mãos e que falasse do potencial têxtil que Alagoas guarda trazendo isso para um contexto de moda. Na época esteve no povoado apenas como turista, para conhecer o ofício dessas mulheres que mantêm viva a técnica do redendê na margem do Rio São Francisco, foi o primeiro contato que teve com esse trabalho que posteriormente se tornou parte da sua coleção de graduação, acompanhado de outras parcerias com grupos produtivos alagoanos também localizados na região ribeirinha. “Foz na verdade é apenas o entendimento desse processo que levou algum tempo para amadurecer e a externalização de uma relação de amizade que se enraizou com as artesãs entremontenses, em especial com Dona Lourdes, que lidera o grupo de bordadeiras envolvidas na nossa ação. Vejo esse projeto como um tributo ao vínculo que criamos ao longo dos anos, o que acredito ser também a essência de todo trabalho feito ao lado de artesãos, que para ser genuíno requer afeto.” nos conta Antonio.

A marca tem diferenciais que têm trazido bons frutos para população, e o desenvolvimento das ações está sendo pautado por entender a possibilidade do artesanato têxtil brasileiro como matéria prima para a criação do vestuário e que a questão é ainda um processo que engatinha no fazer de moda do Brasil. Atualmente é impossível pensar em uma iniciativa comercial que não esteja alinhada aos pilares sustentáveis e aos ideais de mercado justo. A nova geração vem de um contexto onde essas são questões já intrínsecas ao trabalho, especialmente em iniciativas que envolvem a mão de obra artesã, sem perder o foco no objetivo de trabalhar de forma justa, respeitando os limites de cada profissional envolvido na cadeia e se mantendo atentos aos impactos que causamos no nosso entorno.

Enquanto produto, a Foz surge de uma peça específica, a bolsa Lourdes. Feita em compensado flexível de madeira que emoldura a peça de bordado boa-noite sobre tecido de seda feito em tear manual, foi a peça de cunho mais comercial da coleção e que acabou ganhando 2º lugar no Prêmio do Objeto Brasileiro promovido pelo Museu A Casa. A bolsa Lourdes volta em nova versão na primeira coleção da Foz, agora confeccionada em couro caprino de tratamento natural (livre de metais pesados) e 100% costurada à mão, através da técnica de selaria artesanal, além de claro, emoldurar o bordado boa-noite agora feito em linho e tingido nas cores da caatinga.

Junto do acessório, a primeira produção conta com um modelo de camisa e camisa-vestido, ambos feitos em linho com algodão e tingidos numa cartela de cores extraídas de cascas das árvores caatingueiras, além da estampa exclusiva assinada pela artista alagoana Juline Lobão, inspirada nas formas geométricas que se cruzam entre arquitetura e bordado. Em todo processo manual um grupo de artesãos trabalham e constroem coletivamente peças que são carregadas de saber popular, em uma leitura moderna que pode ser absorvida em grandes centros urbanos dentro e fora do país, gerando oportunidades de emprego, continuidade do legado manual e atraindo novos jovens para agregar à essa rede.

A moda e o design sempre vieram de um lugar de exaltação à genialidade do criador, o que na maioria das vezes implica num produto difícil ou excludente. Aos poucos percebemos a evolução desse pensamento para um lugar mais coletivo e consciente que entenda o uso dessas ferramentas como geradoras de impacto econômico e social. Isso se volta à inspiração do que é ser popular, é poder ser compreendido e usado. Esse pode ser também um dos fatores pelo qual não tenho interesse instantâneo em trabalhar com diversos grupos Brasil afora, talvez seja pensar um pouco em micro política e no impacto que essas iniciativas podem causar a longo prazo. Desenvolver um trabalho perene com um grupo específico num produto possível faz a roda girar e mantém essa pequena cadeia em movimento, com os artesãos recebendo encomendas e essa arte sendo propagada.

Sobre as inspirações, Antonio expõe: “Acho que sou muito curioso sobre tudo, e realmente acredito que criatividade nada mais é do que disciplina e repertório, então sempre tento me manter poroso, especialmente a estímulos visuais que possam vir de qualquer parte. O que mais me fascina são as manifestações populares, não só falando em folclore, mas de qualquer vertente ou segmento, sou adepto da beleza ordinária, interiorana, escondida nas brechas e cantos, gosto do que é natural, simples, sem esforço, que não foi muito pensado mas existe porque é inerente à vida daquele lugar. O trabalho das bordadeiras entremontenses merecem posição de destaque e todo protagonismo, poder ser condutor dessa rede, disseminar para outros jovens é perpetuar histórias, é espalhar pelo mundo não roupas, mas obras de arte que vestem o corpo e a alma”, conclui emocionado por saber que compõe essa trama cheia de história.

Nesse sentido, é interessante trazer a luz sobre essa percepção sistêmica da técnica artesanal como metástase, que não reconhece fronteiras e territorialidade. O bordado boa-noite não existe só na Ilha do Ferro e o redendê não só em Entremontes. Essas técnicas são mistas, miscigenadas, viajaram milhares de quilômetros até chegarem aqui e continuam viajando pelos caminhos do Sertão através das mãos das mulheres que as realizam. O trabalho é entender essa coexistência de tipologias e a possibilidade de criar novos diálogos a partir da hibridização delas, chegar a novos lugares e composições usando o conhecimento que essas artesãs detém e que é tão rico, e que deve ser perpetuado pelas novas gerações.

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