SPFW EM TRANSE: Performances, Manifestos e Alfaiatarias que Redesenham a Moda Brasileira

Lino Villaventura
Lino Villaventura reafirmou sua maestria ao apresentar uma coleção que ultrapassa os limites da moda convencional e se aproxima da performance artística. Suas criações, de construção escultural e teatralidade latente, foram verdadeiros poemas visuais tecidos com domínio técnico e sensibilidade estética. Com volumes orgânicos, recortes inesperados e texturas que pareciam vivas, o estilista criou um desfile intenso e emocional, onde a cartela de cores vibrante e os detalhes dramáticos reforçaram seu universo de fantasia autoral.

João Pimenta
João Pimenta vive um dos momentos mais especiais da sua carreira e deixou isso claro em um desfile arrebatador, que já entra para a história da SPFW. A alfaiataria, território que domina com elegância e ousadia, foi ressignificada com cortes precisos, estruturas inovadoras e um styling afinado de Renata Correa. A trilha sonora ao vivo e a escolha da locação reforçaram a força narrativa do desfile, que entregou peças carregadas de significado, beleza e emoção. Pimenta prova que a moda masculina pode ser tão potente quanto sensível — e absolutamente inesquecível.

Piet
O tão aguardado retorno da Piet às passarelas não decepcionou. Com uma superprodução na Arena Pacaembu diante de quase três mil pessoas, Pedro Andrade transformou o desfile num verdadeiro espetáculo. A coleção apresentou uma alfaiataria contemporânea com DNA urbano, alinhando precisão técnica à energia do streetwear sofisticado. A paleta sóbria e os cortes minimalistas encontraram equilíbrio em detalhes que conferiram movimento e personalidade às peças. A apresentação foi uma ode ao renascimento da marca, com força, frescor e um apelo visual arrebatador — encerrando a SPFW em tom épico.

À La Garçonne
Fábio Souza trouxe uma coleção em que o rigor da alfaiataria se funde ao espírito transgressor do streetwear, num diálogo entre passado e presente que resulta em algo moderno e irresistível. Com cintura marcada, quadris acentuados e ombros amplos, os blazers femininos pareciam reinterpretar o “new look” de forma industrial e urbana. O upcycling continua a ser uma marca registrada da grife, agora elevado a um novo patamar técnico e estético. Decotes estruturados, silhuetas ajustadas e uma linguagem visual poderosa reforçam a À La Garçonne como símbolo de sofisticação não-convencional.

Dendezeiro
A Dendezeiro continua a chacoalhar as estruturas da moda nacional com a coleção “Brasiliano 2”, uma continuação do poderoso manifesto iniciado na temporada passada. Reverenciando as culturas do Norte do Brasil, especialmente o Pará e a região amazónica, a marca explora uma alfaiataria conectada com elementos artesanais como palha, couro, tapeçaria e pintura manual. Frases estampadas nas camisetas exaltam as origens nortistas e desafiam o eurocentrismo histórico da moda brasileira. Hisan Silva e Pedro Batalha entregam uma moda politizada, poética e sofisticada — com identidade própria e um olhar transformador.

Dario Mittmann
Com a coleção “Golem”, Dario Mittmann mergulhou num universo onde o místico encontra o cibernético, explorando temas como identidade, tempo e tecnologia. Inspirado na figura mitológica do golem da cabala — ser artificial criado por forças divinas —, o estilista construiu uma narrativa de moda densa, visualmente impactante e profundamente simbólica. O momento mais marcante do desfile foi a entrada de Deborah Secco como mulher-robô, derramando lágrimas numa performance de tom cinematográfico.


Comentar