Festival AfroArt: Filhos de Dandara

Nos dias 04 e 11 de outubro, Maceió viveu algo raro: as periferias se tornaram centro, e o centro se curvou diante da potência que vem do povo preto. Foi o Festival AfroArt: Filhos de Dandara, um movimento que nasceu da ideia de que arte é ferramenta de resistência, cura e reexistência. Idealizado pelo fotoartista Roger Silva, o AfroArt não foi apenas um evento — foi um quilombo contemporâneo. Um corpo coletivo que dançou, vestiu e gritou, transformando o Monumento ao Milênio, no Vergel do Lago, e o Parque Linear, no Benedito Bentes, em palcos da memória e da esperança.

Moda que cura
Quando os corpos cruzaram a passarela de Sillas, em “Vestir é Resistir: Entre Alvos e Axés”, a vibração do público dizia tudo. E quando Nalanda da Silva, à frente da marca Ankh, apresentou “Corpos que Ancestralizam o Futuro”, a moda foi oração, foi denúncia, foi expressividade, foi axé!

Novos olhares
O AfroArt também se fez imagem. A exposição “Iròkò”, uma collab entre Roger Silva e Amora, a expo “Um Olhar Sobre Nós”, do coletivo ClickNiggas e o Concurso de Mobgrafia Almerinda Farias Gama, foram mais do que registros: foram espelhos libertadores. Nas fotografias projetadas no espaço público, vimos jovens periféricos se colocando no centro, não mais como objeto do olhar, mas como sujeitos que devolvem o olhar — altivos, belos, inteiros. Foi a fotografia como ato político, como devolução de dignidade.

Vozes que ecoam
Se Dandara fosse viva, estaria no palco. O Palco Dandara foi o coração do AfroArt — pulsante, diverso, potente. Passaram por lá Mary Alves, Arielly Oliveira, Huná, KayZ, Caio Rocha, Scorpion, Saci e tantas outras vozes que reverberam o que somos. Entre poesia, dança e música, o palco se tornou altar. Cada artista trouxe sua própria chama, e juntas, elas incendiaram a noite.

Economia do afeto
A Feira de Artes Tia Marcelina foi uma ode à criatividade da quebrada. Ali, o talento se misturava com o cheiro de comida boa e o som das risadas. Foram empreendedoras, artistas e criadores mostrando que a economia preta periférica é feita de resistência, mas também de afeto. Mais do que uma feira, foi um mercado simbólico onde cada compra era um gesto de fortalecimento coletivo.


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